Tinha uma casinha no lago, uma vez.
Uma garotinha me contou.
Disse à ela que eu não tinha aonde passar a noite,
e ela me respondeu:
-Eu tenho que encontrar ela antes, você quer me ajudar a procurar?
Não hesitei em concordar.A garotinha sorrindo prosseguiu:
-Enquanto estivermos procurando ela vamos conversar sobre todo o tipo de assunto, assim quando chegarmos lá teremos conhecido bastante um do outro, certo?
Começamos a caminhar por uma estradinha estreita em direção às montanhas e logo conversávamos sobre todas as coisas, e a medida em que nos deparávamos com as semelhanças íamos entrando em uma harmonia maravilhosa...
Como duas crianças que encontram uma caixinha enterrada no jardim;
Quando ela teve sono, dei-lhe colo e contei historinhas;
quando eu sonhava ela vinha e me fazia companhia, deixava meu sonho mais alegre.
Os dias passavam e de mão dadas já nem lembrávamos direito que tínhamos como objetivo primordial encontrar o lago e a casinha; a garotinha tinha um sorriso de todos os sorrisos juntos e a paisagem se confundia com ela e todas as casinhas e lagos que findávamos pelo caminho nos passavam desapercebidos.
O amor nos cegara.
As semelhanças tinham transformado eu e aquela garotinha numa só pessoa.
Um só ver, dividido em dois corpos.
Senti os primeiros pingos de chuva cair,
o primeiro deles caiu em meu rosto e rolou como uma lágrima;
Trovões, e cada um gritando de dentro daquele corpo único
eram dois em um só;
Pus meu casaco sob a cabeça dela e corremos até uma pequena gruta recém-descoberta naquele momento de aflição.
E ela estava se sentindo mal, perguntou por que a chuva era tão má e que iria deixá-la doente.
Defendi as gotas de chuva, pois elas são simplesmente gotas de chuva.
e ela disse que não, só porque elas estavam lhe fazendo mal.
Aquilo fez fissuras no nosso ser único e fez que com os dois saíssem rapidamente, como que por um movimento involuntário; e nos vimos de fora.
Eu não acreditei que aquilo pudesse acontecer, aliás, nunca imaginaria..
e a garotinha chorava dizendo que eu tinha estragado tudo...
Eu só dizia que não.
A manhã chegou, fria e nublada;
ela nos meus braços.
Falávamos agora sobre o medo. Ela tinha certeza de que eu tinha causado aquilo tudo..
e eu tinha medo de perder ela, ela de me perder.
O medo apareceu.
Sentou-se na nossa frente e perguntou o que nós tinhamos a lhe dizer.
Eu e a garotinha nos entreolhamos por alguns instantes.. ela sabia que eu ia responder algo que fosse bom pra nós.. estava na minha expressão.. não tinha como ela não saber..
Mas ela falou antes de mim.
E disse que tinha medo. O medo pegou na mão dela;
e ela lhe disse que eu preferia as gotas de chuva à ela.
-E se eu tivesse de escolher entre as duas? -me perguntei.
Era algo fora de questão.
Novamente o som das rachaduras...
O brilho da lágrima em seu olho;
a última gota que eu iria ver a partir de então.
Começamos a travessia para longe do domínio do medo,
rumo ao mar das incertezas e com os sorrisos mais fadigados com a insistência do sol em nos queimar, friamente...
Uma leve distância de nossos corações, mais uma vez poderia pôr em risco nossa jornada: uma pequena ponte,que com sua humilde estrutura só comportava um peso por vez.
Estendi minha mão para a garotinha,
sorri como a aurora boreal imaginando o outro lado;
Seus passos leves acariciaram cada tábua daquela ponte
e com a festa dos pássaros ela me chamou do outro lado.
O vento soprou forte e como num piscar de olhos a ponte tinha desaparescido.
Um sentimento repentino e infantil tomara-me por alguns milésimos de segundo ao ver a garotinha do outro lado da ponte.
E agora a ponte não estava mais lá.
Não pude deixar de perder a conta dos meus dias depois disso...
Todos os dias ela vem sorrir para mim e me contar como é a tal casa no lago.
Ela reclama que não chove lá,
eu falei pra ela..
que eu não abro mão dela
Mas já me arranjei com as gotas de chuva;
elas se encantaram com as nossas histórias.
No ínicio foi difícil,
mas por fim eu convenci elas que a sua lágrimazinha de felicidade tem o sabor de mil tempestades;
E que eu poderia convencer cada gota de chuva disso
Talvez não pudesse convencer a garotinha..
porque esse nunca foi o meu propósito.
E brigaria com cada gota de chuva por ela.
Por aquela garotinha que me contou de uma casa no lago,
e que no fim das contas eu acabei nem chegando no lago...
Mas isso nunca me fez falta..
nem a chuva e nem a estrada;
se comparada a ela.
Ela fez uma casa e um laguinho e mora comigo no meu coração.