Declaro guerra contra a beleza.
Graças a ela, perdemos o senso.
Deveras, por ela encontramos um prazer estranho e barato, errado.
O que é bonito pra você não parece pra mim;
Você é linda e atrai as pessoas com isso:
Você é feia e atrai as pessoas por isso.
Vejam bem, se estás a observar uma beleza interna ninguém te perturba;
mas se prendes teu olhar às formas, logo te sentes como um palanque no banhado.
A união das duas resulta numa exceção, menos comum nos dias de hoje.
Indignado, nao desisto;
pois sei q tua parte agradável apenas aos olhos há de acabar;
enquanto tua beleza perdurará por todo o sempre.
Enquanto o sempre se resume a este instante,
continuamos numa troca febril de perguntas e sorrisos;
um interlúdio de incertezas.
Não é meu sono que é pesado, é o acordar que é.
Acordar, fazer se perder no dia o êxtase da noite;
Encontrar corpos apodrecendo e plantas que nascem.
Confundir.
Esquecer.
Lamentar, levantar e reagir:
encontrar os mesmos corpos já podres e as árvores quase morrendo...
E dum sorriso tirar subsídio pra sorrir em meio a um oceano de espinhos
Dos espinhos fazer uma armadura:
Morrer pela própria armadura, como uma cobra que morde a língua.
Não tem como entender, ao mesmo tempo que o entendimento pertence ao nosso âmago...
Quero confundí-lo, como ele quer me confundir
Quero te sentir..
[na vitrolenha] Chico Buarque - Não sonho mais


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