Dies Irae

segunda-feira, maio 08, 2006

Declaro guerra contra a beleza.

Graças a ela, perdemos o senso.

Deveras, por ela encontramos um prazer estranho e barato, errado.

O que é bonito pra você não parece pra mim;
Você é linda e atrai as pessoas com isso:
Você é feia e atrai as pessoas por isso.



Vejam bem, se estás a observar uma beleza interna ninguém te perturba;
mas se prendes teu olhar às formas, logo te sentes como um palanque no banhado.

A união das duas resulta numa exceção, menos comum nos dias de hoje.


Indignado, nao desisto;
pois sei q tua parte agradável apenas aos olhos há de acabar;
enquanto tua beleza perdurará por todo o sempre.

Enquanto o sempre se resume a este instante,
continuamos numa troca febril de perguntas e sorrisos;
um interlúdio de incertezas.

Não é meu sono que é pesado, é o acordar que é.

Acordar, fazer se perder no dia o êxtase da noite;

Encontrar corpos apodrecendo e plantas que nascem.
Confundir.
Esquecer.

Lamentar, levantar e reagir:
encontrar os mesmos corpos já podres e as árvores quase morrendo...

E dum sorriso tirar subsídio pra sorrir em meio a um oceano de espinhos
Dos espinhos fazer uma armadura:

Morrer pela própria armadura, como uma cobra que morde a língua.


Não tem como entender, ao mesmo tempo que o entendimento pertence ao nosso âmago...
Quero confundí-lo, como ele quer me confundir


Quero te sentir..






[na vitrolenha] Chico Buarque - Não sonho mais