Dies Irae

quarta-feira, agosto 17, 2005

E outra vez estava mais a divagar dentre memórias do que a imprimir passos no asfalto vingativo das ruas impiedosas; quando fui abordado:

- Com licença Sr., tens um minuto de sua atenção?

Um minuto... atenção...

- Sim?

Sorrindo prosseguiu:

-Bem, er.. faz algum tempo já, eu... er.
Em sua expressão uma conotação tão triste quanto perdida:
-Ahmm... eu perdi uma coisa.

-Já perdi algumas também - intervi - estas porém jamais voltaram a fazer-me falta.

Surpreso não desistiu:
-Mas aí é que está; eu não sei bem o que perdi... na verdade acho que perdi tudo.

Nunca fui muito bom em dar respostas otimistas, assim como um exímio escritor ainda mais tratando-se de diálogos;
-Ao meu ver não deve tratar-se de algo tão ruim assim, afinal o q temos a perder?
Ontem a minha esposa faleceu, o seu corpo se foi - a alma ja tinha ido fazia mais tempo.
Minha vida inteira foi uma jornada ingrata, repleta de diplomas e esquecimentos.
Quando me dei conta: ja havia passado muito tempo, e eu mal tinha o que recordar; a sombra do meu passado me impede de traçar o amanhã sem paralelos com o ontem... preferia tê-lo perdido como você.

Tive a impressão de que a minha resposta tinha sido como um balde de agua fria, uma vez que o seu semblante resplandesceu em admiração:
-Então... eu sou o "Instantes depois"

Nunca esperava uma resposta daquela obviamente;

-Instantes depois de você ter tomado uma decisão o seu passado ficou sem sentido, sem a quem pertencer, você já pensou nisso?

Eu não conseguia mais falar nada.

-As flores que você pôs no caixão daquela que há muito perdera a sua alma dedicada à Você não estão mais lá pois quem as colocou abriu mão de seu passado.
O mesmo aconteceu com aquele que você ajudou ontem a noite.

-Bem, pelo menos o que eu neguei não sabe mais o porque de não ter.
-Sabe sim, só não sabe a quem ele ia perdoar.

-Você me deixou muito confuso agora.
-Mas a sua mente não está mais leve?

Eu não tinha abandonado o passado ainda, que raios. Do que ele estava falando?

Puxei um cigarro para fumar. Naquele instante agradeci por meu impulso ter sido antevisto, de outra forma não teria cigarros para a minha tristeza enfumaçar.
Se eu jogar tudo fora nem o cestinho do lixo vai sobrar, certo?

Do alto do monte de merda da pra ver o sol nascer.